
jogada assim, no branco cru
do papel em que escrevo
sei que nada significas,
sei que nada simbolizas,
sem os olhos meus.
olhos de analisar e traduzir,
olhos de decodificar,
esses que lanço a ti.
ah, Palavra
me digas tu,
que não me podes mentir
(posto que és reflexo de mim),
me digas como irei tirar de mim
toda e qualquer significação?
me digas como e de que matéria
seria feita a minha Poesia!
se mesmo as mais ricas rimas
por si sós, a nada enfeitam.
se mesmo a mais livre métrica
é sempre presa a tantos conceitos,
amarrada sempre a cegos nós de significação.
se a mais concreta forma é pura representação...
palavra,
arrebenta as cordas que atam minhas mãos.
liberta a minha alma para o que é vazio
de entendimento e associação.
me leva a esse não-lugar, tão sombrio...
(em que trem eu devo entrar?
em que verão irei chegar?
em que estação ficou esquecida
a Poesia?...)