22 de março de 2015
Palavra Lançada
Palavra lançada:
Flecha no peito
Que arrancas sem jeito
Da ferida esgarçada.
Não tem argumento.
Não tem artifício.
O que disse está dito.
Se quiser eu repito:
A perda é tua.
A causa é minha.
Eu nunca fui tua.
Tu nunca foste minha.
6 de agosto de 2014
Calada
consente?
Quem cala
sente
que não pode falar.
Calada,
sem consentir,
Eu sigo
Tentando viver
Apesar
Do absurdo
Que se vê.
Bebi do teu copo
E descobri meu segredo:
O meu degredo
Estava em ti.
Peguei meu medo,
Joguei na mala
E sumi.
3 de outubro de 2013
Nós
No vão dos caminhos.
Eu vejo o jardim
de folhas verdes.
Não vejo meus passos,
não sei que rastros
percorro ou sigo.
Lembro dos meus olhos
e sei o caminho.
Entre bosques e alamedas
me persigo.
Eu nada diz.
Eu tudo indaga.
O eco das minhas angústias
me persegue.
Fujo.
Corro por entre as árvores.
Olho para trás
e vejo meus olhos
que nada dizem
(mas eu já nada indaga).
Corro. Morro.
Volto
para mim.
e quando me encontro
Junto os pedaços:
As folhas verdes
Do jardim.
Em mãos
com os olhos.
Sei que os olhos têm
uma audição própria.
Espero que o som seja
o mesmo
ou se assemelhe
ao roçar da língua
no ouvido...
Veja,
é só uma questão
de ouvir de dentro.
Preste atenção
ao que te digo
e não ao som
do que digo
Eu contarei o segredo:
S E G R E D O
Quero contar
como contar
o segredo
e, assim,
desfazê-lo.
(que segredo
que se conta
deixa de sê-lo).
Pegue, tome
tenho medo
de perder
o que direi
ao dizê-lo.
Então (por isso)
vou escrevê-lo:
Tiro de Flecha
a liberdade.
Saltou da minha boca,
eu não ouvi.
Tiro de flecha
alcançou o espanto:
chorei,
mas parti.
9 de setembro de 2013
o estado da rosa
[Kandinsky, Composição VI]
Eu me despeço de tudo quanto vejo
No momento mesmo em que vejo
Porque ao ver, tudo desaparece.
Tudo o que é, quando vejo, deixa de ser,
Passa a ser outra coisa:
E aquilo que vi já se perdeu no meu olhar.
Eu fecho os olhos tentando guardar
A lembrança da rosa, como eu vi,
Como se o estado da rosa fosse a rosa,
Sem saber que a rosa em si não é botão nem flor.
(É semente?)
Só os cegos podem possuir a rosa
Porque só podem conhecê-la,
Porque não podem enxergá-la.
E eles a possuem, ainda que secretamente.
E quando eu te vejo, quando eu te sinto,
Dentro de mim, eu fecho os olhos,
Tento ser cega, te conhecer,
Te possuir.
E de repente eu vejo, não posso evitar.
Eu vejo e me despeço de ti.
Porque já te perdi no abismo de mim.
Eu digo adeus, todos os dias,
Eu rogo a Deus que te traga pra mim...
28 de maio de 2012
Testamento

(Xi Pan - "Spring", óleo sobre tela, 2008).
Entrego para doação todos os meus órgãos.
O meu corpo, a minha carne, eu deixo que o-homem devore.
Quem encontrar meu corpo morto, favor esvazia-lo e entrega-lo
À rua da árvore, número um.
Lá o-homem fatiará
a minha coxa farta e a minha bunda vasta
(seios e sexo serão sobremesa).
As minhas mãos sei que serão pouco nutritivas
por conta do trabalho que desempenharam: a escrita.
Mas os meus olhos serão proteína pura para o-homem
porque testemunharam muita luta e muita coragem,
além de muita dor e muito amor
(os meus olhos têm o cansaço não resignado).
Meus dentes darão um belo colar
que o-homem poderá fazer para seu novo amor,
para que ela tenha algo de mim, aprenda comigo,
o-homem também pode dar metade do meu cérebro,
ou só um quinto, se conseguir
(sei que uma vez em contato com o sabor cerebral, é impossível parar).
Meus pés, duros de tanto caminhar, o-homem jogará para o-cachorro roer.
Braços, pescoço, barriga: são para o-homem.
Joelho, calcanhar: para o-cachorro.
Língua, orelha: para o-homem.
Eu menti sobre doar todos os meus órgãos.
O coração é já de o-homem:
neste instante ele tem meu coração na boca
e o mastiga suavemente.
27 de maio de 2012
SOUVENIR
É tão simples o que espero,
MARGARIDAS
Trago dentro em mim um corpo estranho
13 de fevereiro de 2012
sem nome
Esqueci meu nome
num dos versos
que te escrevi.
Deixei-o
como quem deixa
um feixe
de cabelo
ou uma folha
de outono
entre as páginas
de um livro:
como recordação.
Esqueci-me
para que
tu te recordes
de mim.
Ainda que te lembres
apenas quando tiveres
o livro em tuas mãos,
sei que meu nome
cairá
das páginas
e pousará
na memória.
Eu, no entanto,
ficarei sem passado
e talvez tentarei
escrever-te mais versos,
tentando encontrar
o nome que perdi.
Eu vejo meu nome:
um desenho abstrato
nas paredes
(vidro)
do papel.
Eu tento compreendê-lo,
decodificá-lo,
mas tudo o que consigo ler
é o teu nome.
Não sei se sussurrado,
se cantado
ou mesmo berrado,
o nome traria meu passado
e calaria o presente.
Este presente,
este instante,
me devora
berrando palavras
sem sentido.
Eu tento organizá-las,
mas elas pulam
como peixes
fugidios.
E o que se torna
concreto
(o desenho)
em nada se parece
com aquele que vi
no vidro.
..................................................................
Me chame
Que já não me lembro
Me chame
Que já esqueci
Me chame
Que já perdi todas as forças
Me chame
Que sem a tua boca
Me pronunciando
Não sei o que sou,
Nem o que deveria ser.
Me chame
Pra perto
Me chame:
Deserto.
Grande deserto,
em tuas dunas
o vento sopra
meu nome
que ecoa,
agora,
neste poema.
..............................................................................
Sem a tua voz
que chama,
o meu nome
não é mais
que um nome:
substantivo
concreto
derivado
do nada.
Origem:
devastada.
12 de janeiro de 2012
pressentimento
[foto de Berenice Abbot]
sei que digo muito
quando te olho:
as palavras querem saltar
da minha garganta,
mas se arrastam no papel
goela adentro.
não sei o que espero da Poesia
nem de você.
acho que não espero nada,
apenas pressinto:
nossos corpos
no espaço.
só há uma coisa que me fará
dizer tudo
e não precisar dizer nada:
você
em mim.
6 de outubro de 2011
Palavra

jogada assim, no branco cru
do papel em que escrevo
sei que nada significas,
sei que nada simbolizas,
sem os olhos meus.
olhos de analisar e traduzir,
olhos de decodificar,
esses que lanço a ti.
ah, Palavra
me digas tu,
que não me podes mentir
(posto que és reflexo de mim),
me digas como irei tirar de mim
toda e qualquer significação?
me digas como e de que matéria
seria feita a minha Poesia!
se mesmo as mais ricas rimas
por si sós, a nada enfeitam.
se mesmo a mais livre métrica
é sempre presa a tantos conceitos,
amarrada sempre a cegos nós de significação.
se a mais concreta forma é pura representação...
palavra,
arrebenta as cordas que atam minhas mãos.
liberta a minha alma para o que é vazio
de entendimento e associação.
me leva a esse não-lugar, tão sombrio...
(em que trem eu devo entrar?
em que verão irei chegar?
em que estação ficou esquecida
a Poesia?...)
22 de setembro de 2011
Branco
Encaro,distraída,a manhã clara...
E o meu estado puro de ser finito
Expande-se na imensidão que me embalara
E eu sinto a solidão que sente o mito.
É tudo tão palpável que não acredito.
Fecho os olhos e sorrio, tão serena,
E eu sinto que nasce em mim,como um grito,
Um canto de paz, de graça, de força plena.
Esse som me envolve numa dança
E meu corpo se move como se conduzido
Pelas mãos suaves de uma criança
Que, leve, desliza pelo céu colorido...
As cores invadem os meus olhos com luz
E é como se eu nunca tivesse enxergado
Que o que somos para sempre reluz
No branco espelho em que Deus foi criado.
SONETO SOBRE TEMA
Quando não te vejo, meu amor,
Sinto em meu corpo a tua falta.
É então que eu te desejo com ardor.
Por não te ter é que a paixão se exalta.
E me ponho a refazer, mas já em alfa,
As nossas cenas de entrega com fervor.
É só então que o coração se acalma,
Quando vejo a tua imagem em meu torpor.
Mas, se depois nos temos face à face,
Sinto a mão de Penélope soltando,
Desfazendo, ponto a ponto, nosso enlace.
E me ponho a pensar, antes que esgarce,
Que seria melhor se não te achasse,
E só assim te amasse: não te amando.











